Acordo em Copenhague corre perigo

O maior perigo de todos é o de, em meio a tantas prioridades, não nos darmos conta do problema antes que seja tarde demais. Recordo-me de ter conhecido nos anos 1980 o grande cientista político Raymond Aron. Ele me falou do perigo que existe na política da “negligência benigna” de as boas intenções serem invalidadas pela ausência de foco. É esse o perigo que enfrentamos hoje no que diz respeito às mudanças climáticas.

 

Na cúpula da ONU em Copenhague serão tomadas decisões que vão determinar o futuro do planeta. Mas a possibilidade de chegar a um acordo corre perigo e o maior perigo de todos é o de, em meio a tantas prioridades que competem por nossa atenção, não nos darmos conta do problema antes que seja tarde demais.

 

Para fazer a balança pender no sentido contrário, o Reino Unido lançou na semana passada nova iniciativa diplomática com colegas europeus.

 

Trabalhamos em quatro frentes. Para começar, as mudanças climáticas precisam ser tiradas da caixa intitulada “meio ambiente”. Um pacto para enfrentar as mudanças climáticas é não só desejável mas também imperativo para garantir a segurança nacional e a recuperação econômica sustentada no médio prazo.

 

Os altos preços do petróleo e dos alimentos foram um dos gatilhos da crise econômica atual, incrementando os desequilíbrios financeiros globais e provocando a elevação das taxas de juros. O arrocho dos recursos é o segundo pai da crise, lado a lado com o arrocho do crédito.

 

As mudanças climáticas resultarão em migrações em massa, secas e falta de água, provocando tensões e conflitos nacionais e internacionais. O aquecimento global hoje não está na agenda do Conselho de Segurança da ONU, mas estará no futuro se não aprendermos a viver sem carbono.

 

Em segundo lugar, precisamos de um pacto que seja condizente com a vida em um mundo no qual as temperaturas não terão subido mais de dois graus. Negociações diplomáticas envolvem concessões, mas não devemos fazer concessões quanto ao que ambicionamos para o planeta. Cientistas avisam que os efeitos de uma elevação de temperatura de mais de dois graus sobre o planeta seriam catastróficos.

 

Em terceiro lugar, o maior empecilho a um pacto diz respeito a encontrar uma distribuição justa da responsabilidade entre os países desenvolvidos e os que estão em desenvolvimento. O mundo rico carrega a responsabilidade histórica pelo problema, e suas emissões per capita atuais são muito maiores. Mas o mundo em desenvolvimento será responsável pela maior parte do aumento das emissões no futuro e carregará os custos maiores das mudanças climáticas.

 

O mundo desenvolvido precisa promover reduções ambiciosas em suas emissões, da ordem de 25% a 40% até 2020. E precisa fornecer recursos financeiros e tecnológicos.

 

Em troca, não se pode esperar que, em seus níveis atuais de desenvolvimento, os países pobres reduzam seus níveis globais de emissões, mas eles devem assumir compromissos no sentido de efetuar modificações verificáveis em seu perfil de emissões, em relação ao crescimento usual com alto índice de emissões de carbono.

 

Em quarto lugar, precisamos de uma mudança de tática. Se esperarmos até Copenhague para revelar como pretendemos agir, para arrancar as maiores concessões possíveis dos outros países, o pacto não será selado ou não será suficientemente ambicioso. Se os países pobres souberem que os países ricos estão preparados para assumir suas responsabilidades, acredito que elevarão sua contribuição.

 

Precisamos gerar confiança e impulso nesta fase de preparação. O Reino Unido está determinado a demonstrar liderança nessa questão.

 

Somos o primeiro país a fixar uma meta legalmente obrigatória de reduzir nossas emissões até 2020 em 34% em relação aos níveis de 1990, visando chegar a uma redução de 80% até 2050. Mas o Reino Unido poderá exercer mais impacto como parte de uma mobilização da União Europeia.

 

A UE tem o primeiro mercado de carbono do mundo, que transfere recursos a países mais pobres onde as reduções de emissões têm relação custo/benefício melhor. A UE é a segunda maior doadora de ajuda no mundo. Com um pacote de financiamento climático, poderá alavancar ações de países em desenvolvimento.

 

E a UE tem seis cúpulas importantes programadas até dezembro. É preciso que as mudanças climáticas sejam o tópico central dessas cúpulas.

 

E a UE é beneficiada pelos grandes projetos: a paz e a reconciliação após a Segunda Guerra Mundial, o mercado único, o euro e a ampliação. Seu próximo grande projeto será o de ser o catalisador de um mundo que ultrapasse o carbono.

 

Por David Miliband
Artigo publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo de 20-09-09 


* David Miliband, 44, é o ministro das Relações Exteriores do Reino Unido. É graduado em política, filosofia e economia pela Universidade de Oxford e mestre em ciência política pelo Massachusetts Institute of Technology. Tradução de Clara Allain .

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