Bodoquena: eu quero o parque legal

No adesivo dos carros lia-se: eu quero o Parque Legal. Uma ousadia quando se tratava do estado do Mato Grosso do Sul, 10 anos atrás. Estado absolutamente pecuário e madeireiro, sem história de conservação. Este adesivo tirou o sono de muita gente e marcou definitivamente a história da conservação desse estado, que, até 2000, não tinha nenhuma Unidade de Conservação de Proteção Integral.

Falar de conservação no estado era tabu, nem por brincadeira se tocava no assunto. E ali ninguém brincava em serviço. Quem ousasse falar ou defender a natureza podia estar certo que levaria chumbo. Ali, a negociação era outra: política e financeira. Manda quem pode e obedece quem precisa. O assunto era ainda mais sério quando se falava no Planalto da Bodoquena, uma região de terra roxa estruturada, formada pela decomposição de rochas carbonáticas, abundantes em toda a Serra da Bodoquena. Lugar de solos valiosos para a agricultura, mas que abrigava alguns dos mais relevantes remanescentes naturais do estado, na época ainda carentes de proteção contra o olho gordo do agronegócio, que já havia crescido para aquela região.

Na verdade, não faltavam justificativas para defender uma proposta de conservação na região. É impressionante a importância biológica da Serra da Bodoquena. Apresenta florestas semideciduais e deciduais, onde são encontradas tanto espécies de Floresta Atlântica como de Cerrado e do Pantanal. Isso se deve, dentre outros fatores, à sua localização estratégica, no meio do caminho do Cerrado e do Pantanal, mas também influenciada pelas matas da Bacia do Rio Paraguai, que pertencem ao bioma Mata Atlântica. O Parque Nacional da Serra da Bodoquena protege atualmente uma área de 76.481 hectares, onde foram encontradas mais de 35 espécies de mamíferos terrestres, 14 de morcegos, 39 de anfíbios, 26 répteis, 41 peixes e 353 aves. Mas apesar de sua relevância biológica e paisagística, este parque só pôde nascer devido à espetacular mobilização pela sua criação.

Antes da assinatura do decreto presidencial criando o Parque Nacional da Serra da Bodoquena, já existia uma proposta de criação com mais de dez anos. A ultima proposta oficial já havia sido apresentada ao Ministério do Meio Ambiente há alguns anos, com 90.000 hectares. Mas aprovar a criação deste parque nacional foi uma tarefa árdua e complicada. A minuta de decreto foi encaminhada para a assinatura presidencial umas cinco vezes, no mínimo, como ato em comemoração a todas as datas “ambientais” possíveis, como Dia da Árvore, Dia do Meio Ambiente, Dia do Catador de Latinha, mas nada do parque sair do papel. A papelada ia até a Casa Civil e, na “hora H”, nada havia a ser assinado. Mas o que havia de diferente era um movimento forte para criação desta unidade. Numa escala menor, mas similar à de John Muir para a criação de Yosemite, nos Estados Unidos.

Havia uma forte força política contra a criação da Serra da Bodoquena, mas algumas pessoas do Mato Grosso do Sul se organizaram, batalharam e se fortaleceram para apoiar a proposta. As discussões eram fortes e o confronto era muito desgastante. Nesta história, tem muita gente envolvida, mas três nomes foram muito importantes: Márcia Brambilla; Silvia Torrecilha; e Gláucia Seixas. Um trio de meninas super poderosas da Fundação Neotrópica do Brasil, que enfrentou de frente a barra pesada.

Do lado do Ibama (antes da mutilação do órgão em dois), o incansável Sergio Brant foi e voltou do Mato Grosso do Sul incontáveis vezes, juntando dados para propor a melhor delimitação da unidade, estudando bases cartográficas, bacias hidrográficas, realizando reuniões, colhendo informações, até a data da assinatura do decreto de criação. Foram muitos anos de trabalho duro, muitas vezes menosprezado pelos burocratas de gravata.

Apesar de todo trabalho, de toda mobilização, de toda expectativa, o parque nunca era criado. A pressão contrária era muito grande e, aparentemente, não havia o que fizesse a área sair. Na verdade, os documentos para apreciação e assinatura presidencial desapareciam misteriosamente. Coisas do Brasil.

Quando o decreto de criação foi finalmente assinado, o Parque Nacional não saiu com os limites propostos pelos estudos do Sérgio Brant. Embora o Ibama fosse o responsável pela execução e condução dos estudos, alguns “iluminados” do Ministério do Meio Ambiente se reuniram com a equipe da Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso do Sul e fizeram ajustes na proposta, atendendo demandas obscuras. Nunca foi esclarecida a retirada de quase 15.000 hectares da proposta original. Nunca foi esclarecida a retirada das nascentes de diversos rios. Não foi esclarecida a retirada do banhado do Rio Perdido. Não há respostas para estes retalhes, mas assim nascia a primeira unidade federal de proteção integral naquele estado, à base de muita luta, esforço e persistência.

Vale lembrar, também, que o 2º Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação foi realizado em Campo Grande, justamente para pressionar o governo federal pela criação dessa unidade. Esta idéia surgiu em um momento de desapontamento total, quando parecia que o parque não sairia caso o assunto não fosse exposto na vitrine, colocado para todo público conservacionista brasileiro. Era necessário mostrar que o governo não tinha coragem de criar esta unidade. Se isso realmente levou à resolução do impasse e a criação da área, sabe-se lá, mas que o Ministério do Meio Ambiente se sentiu pressionado, realmente se sentiu. E com medo de passar vergonha diante do público do Congresso, teve que correr e criar o parque em setembro de 2000 e, depois, em outubro, apresentar algum produto para ser comemorado durante o congresso. E aquele adesivo, produzido à custa do “pede daqui e empresta de lá”, marcou este movimento. Hoje é difícil encontrar alguém que se lembre deste movimento, das campanhas, das faixas, das camisetas e dos adesivos.

Pouco se fala atualmente desta que foi uma das maiores manifestações populares pela criação de uma unidade de conservação que já existiu num estado. Quando ninguém falava em consulta publica, toda discussão conduzida naquele momento foi pública, colocando frente à frente conservacionistas e opositores. De lá pra cá, se passaram pouco mais de oito anos, mas atualmente não vemos tanta mobilização a favor de uma área protegida.

Se a proposta de criação do Parque Nacional da Serra da Bodoquena fosse apresentada hoje, seria a unidade criada? Se a resposta for afirmativa, seria criado um parque nacional ou a proposta seria ferida de morte em sua concepção, através de uma distorção fatal na categoria proposta? Nestes tempos de social antes de ambiental, onde interesses locais suplantam interesses nacionais, talvez a proposta seria apresentada como uma Reserva Extrativista, Área de Proteção Ambiental ou até mesmo uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável, para atender a qualquer interesse que não o da conservação. Talvez fosse até “reconhecida” uma nova categoria de população tradicional para receber a área. Mas, a maior probabilidade, seria o engavetamento definitivo da proposta e o parque não sairia, porque a bancada ruralista não deixaria passar. Afinal de contas, mais vale manter a maioria no Congresso que criar uma unidade de conservação para a coletividade e para as futuras gerações.

Talvez essa seja uma das razões pelas quais não é criada uma unidade de conservação de proteção integral no Pantanal do Nabileque. Esta região, localizada ao sul da planície pantaneira, é de grande relevância biológica. Além disso, devido às suas morrarias, possui um papel especial no controle das cheias e vazantes de todo o Pantanal, bem no trecho mais movimentado da hidrovia do Rio Paraguai. Será que não seria a hora de ter uma nova campanha, pelo Nabileque legal? Mas será que existem hoje pessoas com a coragem e a garra da turma que lutou pela Serra da Bodoquena? Será que perdemos esta partida por W.O.?

A criação do Parque Nacional da Serra da Bodoquena, mesmo com as mudanças de última hora, retocadas de forma apressada em cima da impecável proposta original, foi uma vitória para todos que trabalham com conservação. Conquistas como esta nos inspiram e dizem que, apesar de tudo, de todo esforço, de todo empenho, de toda dificuldade, vale a pena. O principal aprendizado com esta história é que ela mostra que ainda se pode fazer muito mais, que existem mais vitórias a serem conquistadas e que temos condições para que elas aconteçam.

Se não fosse por isso, Bonito não teria hoje o Parque Nacional da Serra da Bodoquena. Certamente seria menos Bonito.

Fonte: Reuber Brandão e Verônica Theulen

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