Buraco das Araras é tema de reportagem em coluna da Revista Época

Haroldo Castro, jornalista e colunista da Revista Época esteve no mês de agosto na cidade de Bonito (MS). Conheceu diversos atrativos turísticos da região, entre eles, o Buraco das Araras, localizado em Jardim. Confira sua reportagem publicada no dia 14 de setembro em sua coluna:

Bonito, MS: buraco de urubus e lixo vira jardim das araras

Todos sabemos que Bonito, às margens do pantanal do Mato Grosso do Sul, é um dos lugares mais belos do Brasil. Os que já foram lá, confirmam também que o cuidado com a questão ambiental está na agenda de todos: governo municipal, fazendeiros, operadores de turismo e os próprios visitantes. Hoje vou contar para você uma história de como a conservação da natureza e o ecoturismo, de mãozinhas dadas, transformaram um buraco perigoso e fedorento em um pedacinho de paraíso.

Modesto Sampaio tem 68 anos. É um típico fazendeiro mato-grossense, gente simples e verdadeira. Em 1986 ele comprou 100 hectares de terra no município de Jardim, vizinho a Bonito. “Quando fechei negócio, acabei sabendo que um enorme buraco estava dentro da propriedade. Era um buraco com uma fama muito ruim”, diz Modesto. “As pessoas vinham para fazer tiro ao alvo, jogar lixo e até mesmo despejar defunto.”

Mesmo se conhecido como Buraco das Araras, quando Modesto viu o lugar pela primeira vez, só havia urubus. “Dizem que um peão deu esse nome ao local em 1912, porque existiam muitas araras. Mas quando cheguei, elas haviam desaparecido há muito tempo”, afirma. Na década de 90, o turismo de natureza começou a ter um impacto positivo em Bonito e Modesto pensou em dar uma nova vida a seu buraco. Em 1997, tirou três caminhões de lixo lá de baixo. Em seguida, fez uma experiência: soltou um casal de araras, que vivia em cativeiro. “Queríamos reintroduzir as araras para ver os bichos soltos. Mas poucos dias depois, o casal foi embora. Ficamos bem tristes. Será que elas voltariam?”

As araras mansas regressaram ao buraco. E, boa surpresa, passaram a atrair as araras selvagens. Em quatro anos, já eram 12 aves. “No ano 2000, assisti a uma grande batalha pelo buraco. As araras resolveram expulsar os urubus. Foi uma briga tremenda. As araras venceram no grito – no grito mesmo – e os urubus nunca mais voltaram”, afirma Modesto.

Essa luta simbólica marcou a grande virada na vida de Modesto e de sua família. Em pouco tempo, seu buraco abrigava 18 araras e ele passou a cobrar R$ 2 para que os visitantes pudessem conhecer o Buraco das Araras – já não mais dos urubus, do lixo e dos defuntos. Hoje moram na furna entre 60 a 100 araras da mesma espécie (Ara chloroptera), conhecida popularmente como arara vermelha ou arara vermelha de asa verde.

“Confesso que as araras mudaram minha vida. Antes eu era um peão, vivia solitário, falava com pouca gente. Meu dia era na roça, com enxada, machado e foice na mão”, diz Modesto. “Agora encontro gente de todas partes do mundo. Já não tenho mais gado e me sinto feliz por ter contribuído com a conservação da natureza. É muito gratificante, é um trabalho que vou deixar para meus netos.”

Modesto transformou 29 dos seus 100 hectares em uma RPPN – a Reserva Particular do Patrimônio Natural Buraco das Araras -, uma unidade de conservação inscrita no Ibama, em caráter de perpetuidade. “É um negócio familiar que vai continuar para sempre, pois são as araras que sustentam nossa família”, afirma Modesto. “Preciso cuidar delas muito bem, não é mesmo?”

Por Carla Layane

Com informações Viajologia com Haroldo Castro (Revista Época)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>