Conheça Fernandinha Reverdito

Amar incondicionalmente. É isso que Fernanda Reverdito faz por Bonito (MS), e sem esforço algum! Nascida e criada no destino, a guia de turismo de 32 anos só passou três anos fora, na Bahia, quando resolveu conhecer um pouco mais do mar.

Na profissão há 13 anos, ela conta que tudo começou pelas andanças ao longo dos rios com outros amigos. Fez o curso técnico e hoje atua em todos os passeios, principalmente Gruta São Miguel e Gruta do Lago Azul.

Durante a noite, Fernanda abre a loja que possui na rua 29 de maio, a Casa da Memória Raída. O espaço, em homenagem à avó, funciona como uma espécie de museu e boutique, repleto de histórias que marcaram a cidade, artes e artesanatos regionais.

A loja em formato de museu sempre foi seu sonho. “Queria um museu interativo em que a pessoa pudesse chegar, conhecer um pouco da história, saber sobre as pessoas, comer uma comida típica, comprar um artesanato local e saber quem faz.” E apesar do espaço improvisado, Fernanda está chegando lá: os visitantes são recebidos com café fresquinho e chipa, as inúmeras fotos estão expostas nas paredes, a variedade de livros regionais é de se orgulhar, as peças vendidas são de pessoas que ela realmente conheceu e a TV exibe um documentário de sua autoria.

Filmado em 2003, “Entre Rios e Histórias”, traz a memória oral das pessoas mais antigas de Bonito. A guia de turismo lembra que sempre teve interesse em ouvir histórias da avó. Durante muito tempo realizou um trabalho de resgate, conversava com as pessoas e anotava tudo e aos poucos foi surgindo a ideia final da produção do documentário.

Na época, com a ajuda do amigo Alexandre Baço, o projeto foi aprovado pelo Fundo de Investimento Cultural (FIC) de Mato Grosso do Sul. A partir daí foram meses de roteiro, direção, gravação e edição. O lançamento ocorreu em praça pública, em abril de 2004, para mais de 600 pessoas.

De grão em grão, a guia de turismo foi juntando material que representasse a história de Bonito em fotos, cartas, relatos, livros. Tudo começou pelo seu tataravô, fundador da cidade, depois o nascimento de sua avó Raída, casada com o famoso bandoleiro Silvino Jacques, passando pela fé no personagem de Sinhôzinho. “Toda história da minha vó, depois da minha mãe, depois dos meus tios, me motivaram a ser apaixonada pela minha história.”

Silvino Jacques

Segundo Fernanda, Silvino Jacques é um marco na história do Brasil, uma figura que foi tão polêmica pra uns e muito amado por outros. “Mas foi poeta, historiador, uma mistura de várias coisas.”

O bandoleiro passou pela região da Serra da Bodoquena, fugindo do Sul do país depois de matar o assassino de seu irmão. Sua fama já era grande na época porque atirava muito bem. Afilhado político de Getúlio Vargas, Silvino recebia munições do governo para proteger a fronteira contra a entrada de paraguaios depois da guerra.

Ele e o bando, com cerca de 70 homens que foram agregados ao longo do percurso, ficaram tomando conta da região. “Quando ele conheceu minha avó Raída, ele a roubou porque a quis para ele. Mesmo assim, ela se tornou mulher dele, passaram oito anos juntos e tiveram três filhos. Em vários livros e ouvindo os relatos da minha mãe, ela foi uma das maiores companheiras dele, então, tem várias cartas, vários livros.”

Aos 33 anos de idade, Silvino foi assassinado com um tiro de bala de fuzil. O projétil disparado era do delegado de captura, guarda da época, pai do ex-governador de Mato Grosso do Sul, Zeca do PT.

Quando ele faleceu, D. Raída se casou com Adão, com quem teve outros filhos, incluindo Ramona, mãe de Fernanda.

Sinhôzinho

O Sinhozinho foi um dos maiores curandeiros da região. Na década de 40, curava as pessoas com cinza na água e plantas medicinais, e por conta disso foi muito perseguido pela captura. O fato de não falar, despertava muita curiosidade dos mais antigos, principalmente dos farmacêuticos, que não concordavam com o modo de não cobrar por seus serviços.

Seus milagres foram reunindo devotos, que organizavam romarias e passavam dias nas fazendas por onde ele passava. “Isso realmente aconteceu, a história é verdadeira, o Sinhozinho não é uma lenda, ele é um fato, ele é história, ele viveu aqui. Depois um pouco foi agregado à história de outras pessoas e assim por diante”, afirma.

De acordo com Fernanda, o curandeiro criou capelas por onde passava, deixando uma cruz. A propriedade rural de sua família, na região do Mimoso, foi uma delas. “Até hoje as pessoas fazem oração na capela que passa por dentro da nossa chácara para ser benzido e pegar a água que eles tomam como se fosse um sistema conta gotas”. 

Ninguém sabe ao certo como Sinhôzinho desapareceu. Em sua homenagem, todo ano é realizado um evento pela população local próximo à data de São João, quando são feitas as rezas.

Para a guia de turismo, sua minha maior preocupação é resgatar histórias como essa. “A partir do momento em que você entende, compreende, participa, você consegue dar valor. Agora, se você não souber simplesmente contar, isso vai sendo esquecido e isso é memória oral do povo de Bonito, isso é história!”

Conheça um pouco mais sobre Fernandinha Reverdito:

Te chamam de: Fernandinha

O que te inspira: Natureza e povo de Bonito

Não vive sem: Banho de rio e abraço da mãe

Uma experiência inesquecível: O lançamento do documentário e a alegria das pessoas em se ver em uma tela grande

Gosta de fazer nas horas vagas: pedalar, nadar, tomar tereré com os moradores mais antigos e ouvir histórias

Gosta de ouvir: Desde polca paraguaia e chamamé até moda de viola, samba… Música boa!

Bonito para você é: A caixinha mágica calcária da Serra da Bodoquena

Até a próxima!

Por Daniela Aguena

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