Do Pantanal para a reserva da Serra do Japi

A trajetória da paulistana Maria Antonietta Castro Pivatto, a Tietta, até chegar a Jundiaí é, sem dúvida, interessante. Formada em Biologia e especialista em Ecologia e Ecoturismo, a jovem de 36 anos tem mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional e mora no pé da Serra do Japi há 1 ano e meio. O local escolhido para viver com o marido – o também biólogo e fotógrafo de natureza Daniel De Granville – não foi ao acaso. Tietta sempre esteve ligada ao meio ambiente. “Quando me formei, comecei a trabalhar com estudos do meio em São Paulo, levando estudantes de todas as idades para conhecer museus, cidades históricas, praias, trilhas, zoológicos e parques naturais. Foi em uma dessas viagens que conheci a Serra do Japi, em 1993″, comenta.

No final de 1997 a bióloga foi para o Pantanal trabalhar como guia.  Pretendia ficar apenas três meses, mas se apaixonou pelo lugar e pelo fotógrafo Daniel (seu marido).  “Acabei ficando no Mato Grosso do Sul por 10 anos, entre Pantanal e Bonito. Trabalhei inicialmente como guia de turismo, atendendo principalmente estrangeiros que vinham conhecer as maravilhas daquela região, depois como consultora em meio ambiente, fazendo relatórios técnicos. Também fui instrutora em cursos para guias e monitores ambientais”, relata.

Por indicação de um amigo, o casal veio morar em Jundiaí, para ficar mais próximo da Unicamp – onde Daniel foi aprovado no curso de Jornalismo Científico. Atualmente, Tietta dedica-se à observação de aves como forma de lazer, turismo, aprendizado e atividade econômica. Nessa entrevista por e-mail, ela lembra que no próximo dia 5 de outubro será celebrado o Dia das Aves e convida a população a participar de um evento no dia 4, no Centro de Estudos Ornitológicos de São Paulo. Na ocasião será promovido o Dia da Observação de Aves.

JJ – Você veio morar no bairro Santa Clara, ao pé da Serra do Japi por uma questão ambiental?

Tietta – Sim. Depois de 10 anos morando perto da natureza, era muito difícil pensar em voltar a morar em cidade grande. Em março do ano passado, após sabermos que o Daniel tinha sido aprovado no curso da Unicamp, passamos uma semana na região de Campinas procurando um lugar para morar. Eu já tinha voltado para Bonito quando um amigo falou da serra. Meu marido veio sozinho visitar a região, fotografou uma das casas disponíveis e me mandou. Foi amor à primeira vista! No mesmo dia ele fechou contrato com o proprietário e eu tive um mês sozinha para organizar mudança de Bonito para a Serra do Japi. Mudei sem conhecer a casa, seduzida pelas fotos da paisagem da varanda… Achamos que era hora de começar a vida em outros ares. E a serra era o lugar ideal, uma ilha de vegetação ainda conservada, ao lado da maior megalópole da América do Sul.
 
JJ – Relate um pouquinho do que você observa no bairro Santa Clara. Há desmatamento, preservação?

Tietta – Os moradores da Serra formam um mosaico muito rico culturalmente. Parte desses moradores mantém as culturas originais como criação de animais e agricultura, outros exploram eucalipto ou criação de cavalos. Pelo fato de termos uma reserva no alto da serra, toda a região deve obedecer um zoneamento ambiental, com regras para os loteamentos e de conservação que limitam o desmatamento. Mas infelizmente ainda temos alguns problemas como a queima de lixo, poda e caça, além da falta de compreensão da importância da serra como patrimônio histórico-cultural (desrespeito às construções históricas como as capelinhas feitas ao longo da estrada da romaria). Me preocupo também com a fragmentação causada pelas cercas e muros, que protegem os moradores de invasores, mas impedem a circulação da fauna. No geral, existe empenho de todos em melhorar as condições ambientais da serra e proteger a natureza. Quando necessário, os moradores se reúnem para discutir os problemas da serra e mantemos uma lista de discussão pela internet em que vários assuntos são colocados em pauta. É bem interessante!

JJ – Quais assuntos têm sido discutidos?

Tietta – Acredito que em tempos de mudanças climáticas, a maioria está preocupada com essa questão, devido à sua importância. Os assuntos são os mais variados, desde sinalização das ruas e estradas para facilitar serviços públicos como segurança e transporte, construção de um portal da serra, até o número de capivaras avistadas em cada propriedade. Também entram em pauta vizinhos que insistem em queimar o lixo no quintal e fazer festas barulhentas e inadequadas ao ambiente natural, eventos socioambientais realizados na região e até mesmo a segurança do bicho-preguiça que sempre atravessa a estrada.

JJ – Algumas ações também vêm sendo realizadas para a preservação da reserva?

Tietta – Sim. O Plano de Manejo da serra está bem adiantado e a legislação ambiental limita a exploração imobiliária, diminuindo a fragmentação e o desmatamento. A Associação Santa Clara é uma ONG criada há 24 anos pelos moradores, com o objetivo de cuidar do meio ambiente. O projeto Colo da Serra, entre outros, tem feito educação ambiental com as crianças da região. Um grupo se mobiliza para a construção do portal da serra, que diminuiria a entrada de pessoas mal comportadas. Os moradores estão sempre atentos às agressões dos visitantes e vizinhos menos conscientes. Mas às vezes os problemas vêm de fora, como queimadas provocadas por balões, fogueiras ou velas, além da caça, arapucas para pegar passarinho, lixo, barulho, coleta de plantas e abandono de animais domésticos.

JJ – Como você avalia a flora e fauna da Serra do Japi hoje?

Tietta – Eu não sou especialista, mas vejo pelo número de trabalhos científicos desenvolvidos na região que ainda há muita coisa a ser estudada.

JJ – Seus estudos na área de observação de aves têm sido positivos por aqui?

Tietta – Sim, a região tem uma lista com cerca de 250 espécies, muitas delas de interesse dos observadores de aves, como o gavião-pega-macaco, tangarás, saíras e chocas, entre outras. As aves migratórias também despertam atenção pela longa viagem que fazem do Hemisfério Norte para cá, como o gavião-sovi, bem-te-vi-pirata, tesourinha, algumas andorinhas e papa-moscas. Para quem gosta de observar aves, vale uma visita à reserva biológica (leia mais sobre os animais da Serra do Japi no caderno Especiais).

JJ – Há espécies novas de aves na nossa região, nos últimos anos? Quais são e a que atribui este fato?

Tietta – Quando cheguei à cidade, percebi que algumas espécies que eu estava observando não constavam na lista de aves que eu tinha.  Algumas porque passaram escondidas dos primeiros pesquisadores e outras como seriemas, maritacas e gralhas-do-campo que chegaram devido às mudanças ambientais, pois preferem os ambientes mais abertos resultantes dos desmatamentos ao pé da serra. Mas acredito que devam existir muito mais espécies escondidas na mata que ainda não foram registradas, aguardando pesquisadores e observadores de aves.

JJ – Cite algumas aves ameaçadas de extinção e observadas por aqui.

Tietta – Embora eu não tenha registrado nenhuma ave ameaçada, devemos lembrar que um ambiente em desequilíbrio põe em risco todas as formas de vida que existem nele. Por isso a importância de se preservar a Serra do Japi.

JJ – Com a chegada da primavera, quais mudanças podem ser observadas na reserva?

Tietta – A primavera é o período escolhido pela maior parte das espécies para a reprodução. Isto é visível na vegetação (muito mais flores e frutos) e nas aves, que ficam mais visíveis. Os machos precisam garantir um território e também os filhotes. Para isso, ficam mais agressivos com invasores, cantam com mais freqüência e intensidade para demarcar seus limites. Além disso, sua plumagem fica mais vistosa e muitas vezes é possível observar disputas entre dois ou mais machos por uma fêmea, ou ainda disputas entre dois casais para garantir um bom local para ninho. Quando os casais se formam, é hora de construir ninhos, chocar ovos, alimentar filhotes até que possam se virar sozinhos. Por causa de toda essa movimentação, é também a melhor época para se observar as aves. Algumas espécies deixam o outono e o inverno do Hemisfério Norte para se reproduzir por aqui, em nosso agradável clima tropical.

JJ – Na sua opinião, o que o município (ou a população) poderia fazer para manter a preservação da serra?

Tietta – Em primeiro lugar, ter consciência da importância deste monumento natural que faz parte de Jundiaí. A Serra do Japi pertence à história do município, e isto não pode ser esquecido. Para quem tem propriedade na região, não desmate; quando precisar tirar parte da vegetação, faça o mínimo necessário e com autorização dos órgãos ambientais. Denuncie agressões ambientais. Economize água, não solte balões, destine adequadamente o lixo, enfim, aconselho todas aquelas recomendações que todo mundo gosta de falar, mas poucas pessoas respeitam. E, claro, respeitem os animais. A caça é proibida por lei, mas ainda tem muita gente que insiste em pegar passarinhos em arapucas. Passarinho é para ser livre, observado entre as flores com binóculo, não para cantar triste e engaiolado. Isto ainda é muito forte na cultura do interior paulista e nem todos os criadores respeitam a legislação. Também gostaria de ver programas promovidos pelos órgãos governamentais que valorizassem a serra, com educação ambiental de estudantes e turistas, programas de combate a incêndio, aparelhamento da polícia ambiental e cumprimento da legislação ambiental.

JJ – A especulação imobiliária é fator preocupante?

Tietta – Sim. Hoje em dia as propriedades próximas às áreas verdes estão muito valorizadas, então muita gente tem loteado propriedades rurais que vão pouco a pouco pressionando e isolando as últimas áreas naturais da região. O mais irônico é que algumas empreendedoras vendem condomínios ditos ´ecológicos´, mas que na verdade foram completamente desmatados e descaracterizados antes da venda. Cabe aos moradores da região, e principalmente aos compradores, verificar se toda a legislação ambiental foi respeitada pela empresa.

Fonte: PAULA MESTRINEL/ Portal JJ
 

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