Não é preciso ser verde para ser verde?

Sustentabilidade é a palavra do momento e tem muita empresa se declarando sustentável, por aí. Financiar ou elaborar um projeto social não é a mesma coisa que afirmar que se compromete com a responsabilidade social. É sim uma forma de rebatizar as ações filantrópicas que, por serem pontuais, poucas chances têm de promover alguma mudança no longo prazo.

 

Tomemos como exemplo os bancos que investem em ações sociais ou alavancam ações internas como coleta seletiva ou troca de lâmpadas e equipamentos por outros mais eficientes. São ações que de alguma forma diminuem o impacto de suas atividades e geram economia, mas não impactam de forma positiva a atividade principal dos bancos que é o financiamento muitas vezes direcionado a empreendimentos que promovem grandes impactos socioambientais, como ficou patente no recente relatório publicado pelo Greenpeace que denunciava empréstimos do BNDES para frigoríficos brasileiros que se abastecem de animais criados em áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia.

 

O conceito de sustentabilidade está em construção e ainda causa muita confusão distinguir as ações de responsabilidade socioambiental daquelas que são puro marketing e que tentam dar uma “esverdeada” (greenwashing) em atividades produtivas cujo foco é somente a maximização do lucro.

 

Para que um empreendimento seja considerado sustentável é preciso que seja ecologicamente correto, economicamente viável e socialmente justo, mas o que ainda se vê é um grande abismo entre a ação e o discurso, daí a importância do jornalista compreender com clareza o conceito, pois uma sociedade bem informada poderá dar preferência àqueles produtos que trazem essa preocupação em seu processo produtivo, promovendo as empresas sustentáveis e relegando ao ostracismo aquelas que perderam o bonde da história.

 

O Institutos Ethos de Responsabilidade Social entende a importância da qualificação dos jornalistas no que concerne a Responsabilidade Social e por isso promoveu no Rio de Janeiro o debate “RSE na Mídia: Empresas e Imprensa” cujo objetivo era apurar quais os critérios o jornalista utiliza para diferenciar empresas envolvidas com a gestão socialmente responsável das que querem fazer somente marketing e como as empresas comunicam seu compromisso com a responsabilidade social.

 

O debate contou com os jornalistas André Trigueiro, da Globonews, Marcos Sá Correia, editor do site “O ECO” e Amélia Gonzalez, editora do suplemento “Razão Social/O Globo” representando a imprensa e Nemércio Nogueira, diretor de assuntos institucionais Alcoa América Latina e Caribe; Rodolfo Gutilla, diretor de assuntos corporativos e de relações governamentais da Natura Sonia Favaretto, superintendente de sustentabilidade do Itaú Unibanco representando o setor empresarial.

 

O objetivo do diálogo era que ambos os setores pudessem externar suas queixas e dúvidas sobre as atitudes do outro, o que foi facilitado pelo formato escolhido onde representantes do setor empresarial faziam perguntas para os jornalistas e vice-versa. As principais questões levantadas pelo setor empresarial era a visão deturpada de que todo industrial é “bandido”, o preconceito pelas fontes empresariais e a recorrência das fontes utilizadas para determinadas especialidades, além de uma falta de conhecimento por parte dos repórteres sobre o ambiente industrial.

 

Marcos Sá Correia explicou que de certa forma os repórteres são ignorantes em vários assuntos e têm que aprender a trabalhar com o que não sabem e uma vez dominado o assunto ele deixa de ser repórter e passa a ser uma colunista ou especialista. André Trigueiro concordou com as queixas a respeito das “fontes viciadas” e diz que em certas mídias há certa “acomodação” em relação à lista de fontes, mas lembra que para determinadas especialidades não há variedade de especialistas que possam ser consultados.

 

Os jornalistas se queixaram sobre a banalização do tema “sustentabilidade” e o exagero de algumas peças de marketing, como a da Vale que diz ter zerado seu footprint (pegada), algo inviável de se fazer na atividade mineradora. André apontou os setores de engenharia civil e financeiro como sendo os mais relapsos no que tange a Responsabilidade Social. Para o jornalista esses setores precisam rever sua forma de fazer negócios já que privilegiam a maximização dos lucros desprezando a fragilidade dos ecossistemas e sua capacidade de suporte.

 

 O jornalista afirmou que a sustentabilidade é apregoada de forma incorreta e que o professor José Eli da Veiga vem se esforçando para “desmascarar” essa situação. No livro “Desenvolvimento Sustentável: o desafio do séc. XXI, o Professor alerta que “a tendência tem sido a de aceitar o complemento sustentável com a mesma facilidade que se absorve uma nova gíria ou uma nova marca de sabonete”.

 

Duas situações ilustram com clareza a dificuldade para separar as ações realmente comprometidas com a responsabilidade social daquelas que só querem fazer marketing socioambiental. Ao ser perguntada sobre a possibilidade da indústria fumageira ser considerada sustentável, já que seu produto, o cigarro, provoca inúmeros problemas de saúde para fumantes e não-fumantes podendo levar o usuário ao óbito, a editora do suplemento “Razão Social” do O GLOBO, Amélia Gonzalez diz não ver problemas já que atribui aos consumidores  a responsabilidade de escolher consumir ou não determinados produtos, desprezando o fato dessas indústrias terem negado por décadas os efeitos nefastos do fumo para a saúde humana. Este episódio explicita a necessidade de se reforçar o conceito de responsabilidade social.

 

O Professor da ECA/USP – Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo, Wilson da Costa Bueno lembra que; “Responsabilidade Social, enquanto vinculada ao processo de gestão, deve ser vista mais do que uma simples prática, deve estar umbilicalmente associada a uma filosofia negocial que contemple aspectos que extrapolam a mera relação comercial/financeira das empresas” e acrescenta: “Uma empresa fabricante de armas , uma empresa que integra a indústria tabagista ou que fabrica bebidas alcoólicas, dentre outras, não podem, em princípio, à luz deste conceito, postular, sob nenhuma hipótese, a condição de empresa socialmente responsável , ainda que desenvolvam atividades consideradas positivas (patrocínio de atividades culturais, manutenção de creches etc), porque elas auferem lucros com produtos lesivos à sociedade”.

 

Em outro momento, o jornalista Marcos Sá Correia afirmava que “aporrinhar” é uma forma de contribuir com a empresa, aproveitando a presença do representante da ALCOA – Indústria de Alumínio S/A, para relembrar como o jornalista “batia” na empresa no episódio do reservatório de Barra Grande, cuja barragem foi construída apoiada em informações frauduelentas do EIA/RIMA – Estudo e Relatório de Impacto Ambiental. Segundo Marcos, ultimamente a BAESA, consórcio do qual faz parte a ALCOA, recebe vários prêmios por seus projetos de fundo socioambiental que visam compensar o impacto negativo de seu empreendimento.

 

Nemércio Nogueira relembrou a polêmica a respeito da bromélia Dyckia distachya, espécie de bromélia endêmica do vale do Rio Pelotas, onde foi feita a barragem. Nemércio exalta que a espécie, que consta na lista de espécies em extinção do MMA, foi reintroduzida com sucesso e que “hoje cresce como mato na região”.

 

Resolvi checar a informação do representante da ALCOA com o Diretor do Departamento de Florestas do Ministério do Meio Ambiente que acompanhou a inspeção judicial relativa à Ação Civil Pública movida pela Rede de ONGs da Mata Atlântica e Federação das Entidades Ecologistas de Santa Catarina (FEEC) com o objetivo de aferir se as condicionantes contidas na Licença de Operação da usina estavam sendo atendidas.

 

Segundo o diretor “tecnicamente o projeto de reintrodução está abaixo da crítica e não poderá ser considerado”. Os canteiros foram feitos em áreas de florestas, e as bromélias precisam estar em lugares abertos e iluminados. Mas se o local não é o ideal por que foi escolhido pelo Professor Ademir Reis, biólogo responsável pelo projeto? João de Deus repetiu uma manifestação já proferida quando da audiência judicial sobre o tema; “ou o indivíduo é incompetente ou se foi induzido por conta de outros interesses” e acrescentou que o local ideal para reintrodução será futuramente alagado com a construção da polêmica barragem de Pai Querê no rio Pelotas.

 

A concessão da usina Pai Querê situada no Rio Pelotas, entre os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, foi arrematada pelo consórcio Grupo Empresarial Pai Querê, formado pelas empresas CPFL Geração de Energia S/A, Alcoa Alumínio S/A, Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), DME Energética Ltda., e Votorantim Cimentos.

 

Ética e transparência são valores imprescindíveis na cultura de uma empresa comprometida com a gestão socialmente responsável. Pelo jeito há um longo caminho a ser trilhado por jornalistas e empresários rumo a construção de um mundo mais sutentável, uma condição indispensável para sobrevivermos a crise ambiental que coloca em risco a sobrevivência da espécie humana.


Por Márcia Pimenta/Envolverde

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