Repensando as políticas públicas de Turismo do Mato Grosso do Sul

Por Thomaz Lipparelli*

Uma série de fenômenos econômicos e sociais está ocorrendo em âmbito mundial. A transformação da economia, diante de contextos mais amplos, a transnacionalização dos meios de comunicação e das redes empresariais, a proliferação de novos produtos e serviços no mercado globalizado e as novas funções exigidas da administração pública, estão impondo novos cenários, impactando os sistemas tradicionais de gestão e exigindo um novo posicionamento estratégico do setor público. 

No turismo as mudanças econômicas e sociais são implacáveis sobre a oferta de destinos. As mudanças constantes os tornam mais frágeis, podendo, inclusive, fazer com que um destino torne-se preferencial de um segmento e, em curto espaço de tempo, pode se volatilizar caso não haja mecanismos de adaptação às mudanças em curso.

A atual crise econômica tem contribuído com a tendência de crescimento do turismo interno redirecionando, inclusive, o tráfego internacional do turismo de massa, para o chamado “turismo endógeno”, desviando grande parte do fluxo turístico das chamadas grandes metrópoles para áreas locais com exuberâncias cênicas e baixa densidade populacional, sem as chamadas imposições comerciais ou da obrigatoriedade de consumo.

As possibilidades de Mato Grosso do Sul se beneficiar deste cenário, passa necessariamente pela compreensão que nosso potencial não esta sendo suficientemente desenvolvido e que, necessitamos de um reposicionamento estratégico e alterações profundas nas políticas públicas de nosso Estado.

Entender isso é muito simples. O eixo central da evolução do turismo no mundo todo é a incerteza. Para ser combatida, requer não apenas volume de dados e informações, mas uma análise estratégica destes dados e informações. Nossas instituições públicas devem priorizar a geração de informações, passando a tratá-las como commodity. O conhecimento gerado por estas informações é o elemento diferencial e impulsionador da competitividade atual. Por outro lado, o volume de recursos financeiros gerados nos principais destinos turísticos, é diretamente proporcional ao volume de informações disponíveis e ao tamanho do Plano Estratégico do destino.

Provavelmente, a falta deste commodity seja responsável, também, pela falta de posicionamento de Mato Grosso do Sul no mercado. Logicamente, para corrigir essa falta de visão estratégica, é preciso examinar as variáveis que entram na escala de produção do setor, para traçar cenários futuros com planejamento, logística e redução de riscos. Continuar colocando fichas em processos produtivos informais, empíricos, gerido muitas vezes por operadores que são vistos e reconhecidos como os que não sabem nada, mas que se “arranjam” fazendo um pouco de tudo, manterá o turismo deste Estado fora do processo de desenvolvimento almejado. 

É fundamental destacar, também, que a gestão do turismo esta deixando de ser um modelo burocrático, prestador e concessionário de serviços para um modelo empreendedor, de co-responsabilidade social, a que o Governo, através de seus órgãos de fomento, deve prestar decisiva colaboração em conjunto com as empresas privadas e as organizações sociais. 

É desatualizado o pensamento que a competitividade depende da quantidade de leitos, da disponibilidade de linhas áreas para operar determinadas rotas, da quantidade de campanhas realizadas ou a quantidade de feiras internacionais que se participa. Estes são indicadores de resposta a um processo mais profundo, que tem sua origem nos grandes eixos que determinam uma época, estilo de vida, formas de consumo e motivações.

Entender os estilos de vida, as motivações sociais e os comportamentos dos indivíduos é o filão, que somado ao conhecimento, orientará a reinvenção dos nossos destinos, esforço que deve ser acompanhado da unificação de conceitos e programas de qualidade, de capacitação e de competitividade em geral. Em conseqüência disso, cabe aos gestores públicos desenvolver instrumentos mais sofisticados de análise de demanda, que permitam detectar novos agrupamentos, segmentos e nichos de consumidores, dando lugar a modelos de comportamento dos turistas que demonstraram ser altamente diferenciados.

Por um Plano Estratégico de Turismo para MS

O turismo em Mato Grosso do Sul ainda não atingiu índices de desenvolvimento mais expressivo, devido à falta de visão sistêmica e holística e de pensamento estratégico de nossos gestores públicos. É preciso inovar e desenvolver estratégias administrativas que utilizem, sobretudo, tecnologia avançada; gestão logística para definir um cenário competitivo, antecipando-se aos principais concorrentes nas tendências de mercado; promover intercâmbio de informações sobre experiências vividas e refletir sobre o cotidiano das empresas e das organizações do setor.

As políticas públicas de turismo precisam ser repensadas em função da própria dinâmica da atividade e dos cenários futuros que se apresentam. Isto exige à reformulação das estratégias de desenvolvimento sustentável, ora voltada a regionalização, impondo-se analisar com mais atenção as principais dificuldades e obstáculos à ação integradora e intersetorial do sistema institucionalizado público de turismo, e suas interfaces com a economia e o meio ambiente.

Os entraves ao desenvolvimento do turismo de Mato Grosso do Sul são inúmeros, entre os quais, destacam-se: a) ausência de estudos de viabilidade econômica e mercadológica na amortização e retorno de investimentos, dos seus impactos ambientais e sociais, b) ínfimo percentual das viagens aéreas de turismo doméstico em razão das tarifas elevadas e, c) quase nenhuma integração, ainda, entre os operadores primários de roteiros turísticos: agentes, transportadores e hotelaria.

A falta de um planejamento sem a efetiva parceria criativa entre os órgãos ambientais e os de turismo (o que seria uma grande oportunidade), tem resultado na montagem de atrações turísticas fossilizadas, superficiais e pasteurizadas para o rápido consumo. Soma-se a tudo isso as iniciativas desfocadas, que atraem as forças devastadoras do turismo de massa e o forte apelo do lucro fácil que geralmente vem junto com empresários e planejadores associados a interesses imediatos.

A falta de uma ação intersetorial entre os órgãos públicos de turismo (estado e dos municípios) também é responsável pelo crescimento isolado do setor e a elaboração de planos e programas impróprios e dissociados da realidade regional. O que é bom para uma região, pode não ser interessante para outra. Constata-se, também que as prioridades e dotações dos órgãos públicos contemplam o setor de turismo apenas marginal e subsidiariamente, e são aplicadas com objetivos não integrados.

A falta de intersetorialidade é produto da rigidez das competências administrativas e políticas dos órgãos governamentais, sejam estadual e municipal, que não assistem à sua própria modernização. É justamente na falta de intersetorialidade da ação conjunta e integrada dentro do setor público com setor privado que reside, até hoje, o maior gargalo para a atuação eficaz dos órgãos públicos de turismo em MS. 

Por estes e outros motivos, Mato Grosso do Sul necessita de um Plano Estratégico de Turismo que garanta uma nova estrutura de gestão apoiada pela participação de segmentos empresariais e organizações sociais. Que tal plano viabilize a construção coletiva de um modelo de desenvolvimento para o setor; que possibilite atingir compromissos permanentes entre a iniciativa privada e o setor público, por meio de instrumentos que conduzam para a gestão compartilhada; a participação mútua de custos; a definição de programas e produtos de promoção turística que superem modos tradicionais de fazê-la; a elaboração e promoção de produtos que conjuguem a oferta com a própria rentabilidade.

Somando-se a isso, alguns objetivos primários devem também ser priorizados, tais como: a) elaboração de um Plano Diretor de Desenvolvimento, integrado e sustentável de turismo regional, com estudo de viabilidade econômico – financeiro dos investimentos necessários e, b) a constituição de um Fundo de Recursos para os investimentos regionais e para a captação de financiamentos no mercado nacional e internacional.

A descentralização das decisões e a convergência dos colaboradores constituem a base do sucesso deste novo modelo de políticas públicas que o Estado necessita. São idéias elementares, que os pequenos empreendedores sabem estruturar e dar formas organizativas originais. É este processo de adaptabilidade, e não de afortunado capricho da sorte, que nasceram os Planos de Desenvolvimento do Turismo da Argentina, Itália, Canadá, Espanha e Costa Rica, que tantos invejam, e tentam copiar.

Necessitamos estabelecer hierarquia de prioridades no planejamento da economia deste Estado e, sobretudo, reconhecer que a atividade turística não tem sido considerada na medida desejada e potencialmente possível entre as alternativas da política de desenvolvimento de Mato Grosso do Sul. Quando reorientarmos o turismo só não esqueça de apontá-lo na direção do crescimento equilibrado, justo e sustentável.

Se isso não acontecer voltaremos a colocar nossas fichas na “Tilápia(*) a Cocais” no Festival Internacional de Turismo de Mato Grosso do Sul em 2010. Aliás, segundo a Fundação de Turismo de MS “a nossa gastronomia é um diferencial competitivo para o turismo no Estado”.  Ou talvez seja apenas falta de visão. 

(*) “tilápia” é o nome vulgar dado a algumas espécies africanas de peixes, que infelizmente foram introduzidas em Mato Grosso do Sul e querem colocá-la na gastronomia regional.

*Biólogo, MsC e Dr. em Ciências Biológicas pela UNESP, Consultor técnico em Planejamento Estratégico.

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