Sinergias entre mudança climática e desertificação

Participantes da conferência da Organização das Nações Unidas contra desertificação, que acontece em Buenos Aires, disseram que a mudança climática exacerba a degradação dos solos, mas, se houver um uso sustentável deles pode-se contribuir para mitigar o aquecimento global. Como instância prévia à Cúpula do Clima de dezembro em Copenhague, representantes de 193 governos estão reunidos esta semana em Buenos Aires na Nona Sessão da Conferência das Partes (COP 9) da Convenção das Nações Unidas de Luta contra a Desertificação.

 

“A partir de agora será difícil falar de mudança climática sem falar da necessidade de recuperar o solo”, afirmou a ministra do Meio Ambiente e Turismo da Namíbia, Netumbo Nandi-Ndaitwah, após o segundo dia de discussão do grupo de alto nível da COP 9, integrado por ministros dos países-parte e funcionários internacionais.

 

Os presentes à reunião, que terminará amanhã, debateram sobre o papel que terão as terras nas negociações sobre novas medidas para mitigar a mudança climática que serão analisadas na capital dinamarquesa. Nesse sentido, Nandi-Ndaitwah disse que “nunca houve um vínculo tão claro entre mudança climática e degradação com o existente agora, com provas científicas”. De todo modo, os delegados da América Latina e da África defenderam a particularidade da Convenção sobre Desertificação, que tem um mandato diferente do seu similar sobre mudança climática. “O que devemos fazer é buscar sinergias, ver como complementarmos para atender nossos objetivos”, destacou a ministra.

 

O encontro de alto nível foi aberto pelo secretário-executivo da Convenção, Luc Gnacadja, de Benin, que destacou que o manejo sustentável do solo deve ser parte das negociações de Copenhague. “O carbono na atmosfera é uma substancia que contamina, mas na terra é um commodity (produto básico), um bem comum”, afirmou. Nesse sentido, Gnacadja leu para os delegados uma mensagem do secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, na qual ressalta a necessidade de “levar em conta o intrínseco vínculo entre desertificação, degradação da terra e mudança climática”. Segundo Ban, “o manejo sustentável pode dar uma contribuição crítica através da captura de carbono e da restauração da vegetação”, além disso, “a agenda da terra deve ser parte de Copenhague”. Para isso exortou os representantes dos países para que suas deliberações sejam um guia para os delegados da Cúpula do Clima.

 

A degradação dos solos, causada por efeitos climáticos e também pela atividade humana, afeta mais de dois bilhões de pessoas em diferentes partes do mundo. Na América Latina e no Caribe, 25% das terras estão degradadas, e estes processos acentuam a pobreza, a fome e as migrações. Segundo os estudos científicos, a agricultura intensiva, o desmatamento e a degradação dos solos são fonte de produção de gases de efeito estufa que levam ao aquecimento da atmosfera. Por outro lado, a reabilitação de solos degradados através de seu manejo sustentável pode contribuir para fixar esse carbono na terra.

 

Mas, se a degradação continuar se expandindo e provocando perda de produtividade, emigrações e insegurança alimentar, a mudança climática, com seu impacto em secas mais intensas e prolongadas em zonas secas exacerbará o problema da pobreza e da fome, afirmam os estudos. Em conversa com a IPS, a diretora do Fórum das Nações Unidas sobre as Florestas, Jan McAlpine, que participou da cúpula, disse que, “definitivamente, a questão da terra tem um papel nas discussões sobre mudança climática”, mas alertou que o tema “é complexo”.

 

A Convenção das Nações Unidas de Luta contra a Desertificação não se limita às contribuições do solo como fixador de carbono, mas que trabalhará também no cuidado com a biodiversidade, a água e o bem-estar das pessoas que vivem em ecossistemas frágeis como são as terras áridas. “Um manejo sustentável da floresta deve ser feito a partir de um grande número de convenções e acordos”, afirmou.

 

Por fim, os delegados discutiram a necessidade de aumentar o fluxo de recursos para o combate contra a degradação dos solos. Neste sentido, disseram que é necessário maior compromisso financeiro para os projetos de reabilitação de solos que, segundo alguns delegados, poderiam ser provenientes da Convenção Marco sobre Mudança Climática. Os países industrializados consideram que um modo de cumprir os compromissos de redução das emissões de gás de efeito estufa, sob a Convenção de Mudança Climática, é o reflorestamento, e estes projetos podem ajudar a recuperar as terras degradadas.


Por Marcela Valente, da IPS

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