Terramérica – Incentivo a turismo em pântano

Ciénaga de Zapata, Cuba, 28 de setembro (Terramérica).- A fermina (Ferminia cerverai) é conhecida como a “soprano da floresta”, por seu belo trinar. Mas esta pequena ave é muito tímida e, ao menor ruído, se esconde atrás da vegetação de Santo Tomás, localidade da cubana Ciénaga de Zapata. Ver e ouvir este passarinho endêmico deste pântano (o maior e melhor conservado de Cuba e do Caribe insular) costuma ser o desejo dos que visitam o lugar, até agora pouco explorado pelo turismo internacional, voltado para praia e sol. Entretanto, autoridades da indústria do lazer decidiram abrir as portas aos viajantes que buscam algo mais do que um bonito bronzeado.

 

“Dispomos de quatro instalações hoteleiras em condições adequadas a esse segmento turístico, que aprecia muito a natureza e pode estar interessado em ofertas como trilhas, observação de aves, mergulho de observação ou pesca esportiva”, disse ao Terramérica o diretor comercial da operadora turística Cubanacán em Ciénaga, Estanislao Rodríguez. Este extenso e pouco povoado município da costa sul da província de Matanzas, a cerca de 200 quilômetros de Havana, guarda pelo menos 65% da avifauna cubana, e cerca de mil espécies de plantas e anfíbios endêmicos, como o crocodilo cubano (Crocodylus rhombifer), que tem aqui seu hábitat preferido.

 

Entre o final de novembro e março, é possível observar, na estação ecológica de Las Salinas, não menos do que 65 espécies de aves migratórias que fogem das baixas temperaturas do inverno nos Estados Unidos e no Canadá. Neste ecossistema, declarado Reserva da Biosfera em 2000 e sítio Ramsar em 2001, predominam as planícies baixas, pantanosas e semipantanosas, com vegetação de savana. Também possui florestas, rios, lagos naturais e cerca de 70 quilômetros de cavernas, onde se formam lagoas semicirculares de água doce chamadas “cenotes”. A região recebe apenas cem mil turistas a cada ano.

 

Está em marcha uma campanha comercial para atrair turistas, principalmente da Europa, com maior poder aquisitivo para viagens especializadas. Uma eventual abertura do mercado dos Estados Unidos, afetado pelo embargo econômico que impede cidadãos desse país de viajarem livremente para Cuba, pode aumentar a demanda pelo turismo de natureza, com um impacto perigoso para o ecossistema. Sobre essa possibilidade, o ministro cubano do Turismo, Manuel Marrero, disse ao Terramérica que “essa presença maciça tem de ir para as praias”. O desenvolvimento do ecoturismo pretendido por Cuba será com base em uma “exploração justa” e em função da densidade prevista para cada lugar, acrescentou.

 

Hoje, torna-se cada vez mais necessário diversificar nossos produtos, e decidimos desenvolver o turismo de natureza, mas de maneira “sustentável”, afirmou Marrero em uma reunião internacional destinada a promover Ciénaga de Zapata como destino. Pablo Bouza, diretor do Parque Nacional Ciénaga de Zapata, que ocupa praticamente toda a área de mais de 600 mil quilômetros quadrados, também insistiu ao Terramérica que são feitas previsões para um turismo que “não é de massa, mas de sustentabilidade”.

 

“Desde que decidimos fazer uso público destas áreas protegidas, foram estudadas as capacidades dos locais que poderiam ser usados para o turismo de natureza. Existem instrumentos para medir a efetividade do manejo em cada atividade, com avaliações semestrais”, explicou. Como exemplo, Bouza citou o caso das caminhadas no sistema espeleo-lacustre, onde será possível visitar apenas três das 90 cavernas inundadas do território. Além disso, de cada vez entrarão apenas sete pessoas e um máximo de 15 por dia. As autoridades também acreditam no estreito vínculo da indústria turística com os organismos estatais encarregados da proteção ambiental.

 

Estudos sobre o tema propõem, entre outras medidas, adoção de uma legislação exaustiva para supervisionar o cumprimento das normas existentes, maior coordenação de todos os fatores envolvidos na atividade turística, apoio financeiro para aplicar métodos de gestão sustentáveis, e tecnologias mais modernas e que respeitem a natureza. Da superfície de Cuba, 22% está localizada em alguma categoria de proteção natural, de acordo com o alto valor de sua diversidade biológica.

 

Junto a Ciénaga de Zapata, destacam-se as reservas da biosfera declaradas em Guanahacabibes e Sierra del Rosario, na ocidental província de Pinar de Rio. Também são reservas da biosfera a área de Buenavista, no arquipélago Jardines del Rey, no centro do país, e Baconao e Cuchillas del Toa, na parte oriental da ilha. Apesar de suas riquezas naturais, a variante ecológica representa apenas 4% do turismo cubano, que deve atrair 2,36 milhões de visitantes este ano.


Por Patricia Grogg
* A autora é correspondente da IPS.

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